A Encruzilhada da América Latina: O Autoritarismo Popular em El Salvador e o Colapso no Haiti
Em um cenário global repleto de escândalos políticos e debates sobre os rumos da democracia, algumas situações na América Latina extrapolam o que estamos acostumados a ver. São crises que atingem níveis de intensidade surpreendentes, revelando as profundas fraturas sociais e os dilemas que marcam a região. Dois casos, em particular, se destacam como espelhos de realidades extremas: El Salvador e Haiti. De um lado, um governo de mão de ferro com aprovação popular esmagadora; do outro, um Estado em completo colapso, dominado por gangues.
O Paradoxo de El Salvador: Segurança a Qualquer Custo?
Para entender o que acontece hoje em El Salvador, é preciso olhar para o seu passado recente. Não faz muito tempo, o país ostentava o título sombrio de nação mais perigosa do mundo, com uma taxa de homicídios por habitante que chegava a ser quatro vezes maior que a do Brasil. A violência, alimentada por gangues e redes de narcotráfico que usavam o país como um ponto estratégico de distribuição, era o problema número um da população, superando a desigualdade, a pobreza e a falta de serviços básicos. O medo era uma constante na vida dos salvadorenhos.
É nesse cenário que surge Nayib Bukele, um político jovem, eleito presidente pela primeira vez em 2019, aos 37 anos. Com um discurso de "nova política" e prometendo uma guerra sem tréguas contra a criminalidade, ele rapidamente capturou o anseio popular. Bukele não apenas prometeu, mas agiu de forma drástica, levantando uma questão que hoje ecoa por todo o continente: para ter segurança, vale tudo?
Sua popularidade é um fenômeno. Com uma aprovação que beira os 90% e uma rejeição de apenas 11%, Bukele é, possivelmente, o líder mais bem aprovado do mundo. Nas últimas eleições, declarou-se vencedor com apenas 30% das urnas apuradas, tamanha era sua vantagem. Ele mesmo, em tom jocoso, já se autoproclamou "o ditador mais legal do mundo", uma frase que, apesar da ironia, carrega o peso de suas ações.
Para implementar seu pacote anticrime, Bukele não hesitou em cercar o Congresso com o Exército e a polícia, pressionando os parlamentares a aprovarem seus projetos sob o olhar de militares armados. Em outra ocasião, para contornar a oposição, aposentou compulsoriamente um terço dos juízes do país, incluindo cinco magistrados da Suprema Corte, substituindo-os por aliados. Foi essa nova configuração do judiciário que lhe permitiu encontrar uma brecha na Constituição, que proíbe a reeleição, e garantir um novo mandato.
O resultado de sua política de encarceramento em massa é visível. Cerca de 75.000 pessoas foram presas, muitas em regime de prisão preventiva, sem acusações formais e através de julgamentos coletivos. As prisões estão superlotadas. Contudo, nas ruas, a percepção é de que a violência diminuiu drasticamente. A população relata uma sensação de segurança que nunca havia experimentado antes. Para muitos salvadorenhos, Bukele resolveu o problema.
Essa aparente solução, no entanto, acende um alerta na comunidade internacional. O principal temor é a criação de um raciocínio perigoso: a ideia de que um combate sério à violência é incompatível com um regime democrático. A experiência de El Salvador levanta o medo de que a população, desesperada por segurança, esteja disposta a abrir mão de direitos constitucionais e do próprio processo democrático, criando um precedente arriscado para outras nações que enfrentam desafios semelhantes.
Haiti: Um Mergulho no Abismo da Instabilidade
Se El Salvador representa um dilema sobre autoritarismo e segurança, o Haiti vive uma realidade de desintegração completa. Sendo o país mais pobre das Américas, sua história é uma sucessão de tragédias, exploração e instabilidade crônica. O Haiti carrega a distinção de ser o palco da única independência liderada por negros e ex-escravizados nas Américas, um feito que, em vez de garantir prosperidade, atraiu o isolamento e a fúria das potências coloniais.
Após sua independência da França, o país foi sufocado economicamente. Um embargo comercial liderado pelos Estados Unidos, a pedido dos franceses, impediu que o Haiti, um grande exportador de açúcar, vendesse seus produtos. Como se não bastasse, a França processou sua antiga colônia, exigindo uma indenização bilionária pela "perda" de terras e escravos. Para poder voltar a comercializar, o Haiti foi forçado a pagar, endividando-se profundamente, muitas vezes com empréstimos de bancos... franceses. Essa drenagem de recursos impediu qualquer projeto de desenvolvimento e semeou as sementes de uma pobreza estrutural.
Historicamente, o poder no Haiti foi conquistado pela força. A primeira eleição democrática do país só ocorreu em 1991, quase 200 anos após sua independência. Ditaduras, golpes de estado e milícias armadas, como os temidos Tonton Macoute, tornaram a violência a principal ferramenta política.
Hoje, essa herança se manifesta da forma mais brutal possível. O Haiti vive um caos absoluto. A capital, Porto Príncipe, está 80% dominada por cerca de 23 gangues de narcotraficantes. Grupos como a "Família G9", liderada pelo ex-policial Jimmy "Barbecue" Chérizier, controlam infraestruturas críticas como o principal aeroporto e o porto de combustíveis. Eles tomaram delegacias, esvaziaram presídios — em um único evento, 3.600 detentos foram libertados — e impõem um toque de recolher na cidade.
A crise se aprofundou em 2021, quando o então presidente, Jovenel Moïse, foi assassinado por mercenários dentro do palácio presidencial. Seu sucessor, Ariel Henry, prometeu eleições que nunca aconteceram e, recentemente, foi impedido de retornar ao país pelas próprias gangues que controlam o aeroporto. Atualmente, o Haiti tem um presidente que não pode entrar em seu próprio território.
Com uma força policial de apenas 9.000 homens para uma população de 11 milhões, o Estado haitiano não tem capacidade de enfrentar o poderio militar das gangues. A comunidade internacional, incluindo o Papa Francisco e a ONU, pede ajuda, mas a situação é de um colapso quase total. As gangues chegaram a propor a criação de um "conselho de sábios" para governar o país, um sinal claro de que o poder estatal está vago e pronto para ser tomado.
Enquanto isso, a população local vive presa no meio do fogo cruzado, em um país onde a esperança parece ter sido a última vítima. Leia mais em: https://diplomatique.org.br/historia-da-crise-socio-politica-do-haiti-como-tudo-chegou-ao-ponto-atual/
