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COP 30: OS ACORDOS VÃO FUNCIONAR?

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Redação29 de novembro de 2025 • 6 min de leitura
A COP 30, sediada em Belém, busca ser a "COP das verdades", superando promessas vagas de conferências anteriores. A principal proposta é um fundo inovador para pagar nações pela preservação de florestas tropicais e multar pesadamente o desmatamento.
COP30 inicia segunda semana com apelos por ação imediata contra a crise  climática
COP30 inicia segunda semana com apelos. Fonte: https://cop30.br/pt-br/noticias-da-cop30/cop30-inicia-segunda-semana-com-apelos-por-acao-imediata-contra-a-crise-climatica

COP 30 em Belém: Entre Promessas Audaciosas e Duras Realidades

Em meio à floresta amazônica, líderes mundiais se reúnem para a COP 30, um evento que carrega o peso de uma pergunta crucial: será este apenas mais um encontro para discursos grandiosos ou veremos, finalmente, a implementação de medidas efetivas para o futuro do planeta? O Brasil, anfitrião do evento, não esconde sua pretensão de se posicionar como a grande voz climática do Sul Global, uma ambição que remonta à Conferência de Paris e que agora ganha um palco sem precedentes.

A promessa é que esta seja a "COP das verdades", um contraponto direto a conferências anteriores, como a do Qatar, que se notabilizou por declarações vagas e promessas sem um plano de ação claro. A retórica de "diminuir a dependência dos combustíveis fósseis" sem explicar como se assemelha a velhas promessas políticas que soam bem, mas raramente se materializam. É nesse vácuo de concretude que surgem narrativas curiosas, como a da Arábia Saudita, que chegou a denunciar uma suposta era de "preconceito contra o combustível fóssil", defendendo que o foco deveria ser no combate à emissão, e não na fonte. Uma manobra discursiva que ignora o fato de que a queima desses combustíveis é, precisamente, o maior motor das emissões globais.

O Fracasso de Velhas Metas e a Urgência do Presente

Para entender a urgência da COP 30, é preciso olhar para trás. A COP 21, em Paris, estabeleceu a meta mais importante até hoje: impedir que o aquecimento global ultrapassasse 1,5°C em relação aos níveis pré-industriais. Era um plano de 80 anos, com metas progressivas de redução de emissões. Contudo, a realidade se impôs de forma brutal. Já em 2024, apenas quatro anos após o início da vigência do acordo, o mundo superou essa marca. Se um plano de longo prazo falha tão cedo, é sinal de que ele precisa ser revisto com urgência e audácia.

É nesse contexto que a conferência em Belém já apresenta uma pequena, mas significativa, vitória: a definição de uma agenda clara desde o primeiro dia. Pode parecer pouco, mas muitas COPs terminam sem sequer conseguir um consenso sobre os temas a serem debatidos. Além disso, uma proposta financeira robusta foi colocada na mesa, buscando transformar a preservação ambiental em um negócio viável e duradouro.

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Uma Proposta Inovadora: O Fundo Para Florestas Tropicais

A grande aposta da COP 30 é a criação do Fundo para Florestas Tropicais Para Sempre (TFF). A ideia é revolucionária em sua simplicidade: criar uma renda fixa para os países que possuem e preservam suas florestas tropicais. Por quê? Porque essas florestas prestam um serviço inestimável ao planeta. A sua simples existência reduz a temperatura global em meio grau e limpa, anualmente, um terço de todo o carbono emitido pela humanidade.

Historicamente, as nações mais industrializadas — como Estados Unidos, China, Japão e os países europeus — alcançaram seu desenvolvimento às custas de suas próprias florestas temperadas, o bioma mais devastado da história. Agora, o mundo depende que os países do Sul Global mantenham suas florestas intactas. A lógica é clara: se você quer que eu preserve, você precisa compensar a oportunidade econômica que estou perdendo. Como diz o ditado popularizado em Tropa de Elite 2: "Quem quer rir, tem que fazer rir".

O mecanismo proposto é um inteligente sistema de incentivo e punição. Os países receberiam 4 dólares por hectare de floresta mantida em pé. No entanto, a grande virada está na penalidade: uma perda de 100 dólares por hectare desmatado. A mensagem é inequívoca: o custo de destruir é muito maior do que o benefício de preservar.

Mas de onde viria o dinheiro? A proposta é criar um fundo de 125 bilhões de dólares, gerido pelo Banco Mundial. Esse dinheiro não seria gasto, mas sim investido. Os pagamentos anuais aos países viriam dos lucros gerados por esses investimentos, garantindo que o fundo se perpetue — daí o "para sempre" no nome. É uma tentativa de alinhar a preservação ambiental à lógica do mercado financeiro, criando uma fonte de renda sustentável para quem protege o planeta.

A Amazônia como Coração do Clima (e da Economia) Sul-Americana

Para o Brasil, a importância de preservar a Amazônia vai muito além de qualquer fundo financeiro. A floresta é o maior banco biogenético do planeta, um filtro de carbono vital e, crucialmente, uma gigantesca usina de umidade. Através de um processo chamado evapotranspiração, a Amazônia lança na atmosfera um volume de água diário comparável ao do Rio São Francisco.

Essa umidade forma o que os cientistas chamam de "rios voadores" — massas de ar carregadas de água que viajam pelo continente. Elas são tão pesadas que, ao encontrarem a Cordilheira dos Andes, são forçadas a retornar e se espalhar, irrigando não apenas o Brasil, mas grande parte da América do Sul. Cerca de 50% das chuvas que caem no Sudeste e Sul do Brasil, e em países como a Argentina, vêm da Amazônia.

O impacto disso na economia é direto e massivo. Mais de 50% da energia elétrica brasileira vem de hidrelétricas, que dependem dessas chuvas. Além disso, 87% da agricultura do país, principal motor de suas exportações, depende do regime de chuvas, pois não possui sistemas de irrigação. Desmatar a Amazônia não é apenas uma catástrofe ambiental; é um suicídio econômico que levaria a contas de luz mais caras, alimentos mais caros e ao colapso de setores inteiros da economia.

As Contradições no Espelho

Apesar das propostas promissoras, a COP 30 não está livre de profundas contradições. A meta de arrecadação do fundo de 125 bilhões de dólares, por exemplo, prevê apenas 25 bilhões de contribuições governamentais, deixando 100 bilhões a cargo da iniciativa privada — uma divisão que parece desproporcional.

A Noruega, que generosamente prometeu 3 bilhões de dólares, é, ao mesmo tempo, um dos cinco países responsáveis por 70% de todos os novos poços de petróleo perfurados no mundo. E o próprio Brasil, enquanto lidera o debate sobre o clima, acaba de autorizar a perfuração do primeiro poço de petróleo na margem equatorial, cuja base de operações fica, ironicamente, em Belém, a cidade-sede da COP. Além disso, o maior vetor de desmatamento na Amazônia brasileira continua sendo a pecuária bovina, uma atividade cujo rebanho, se fosse um país, seria o sétimo maior poluidor do mundo.

Essas duras realidades mostram que o caminho é complexo. A COP 30 tem o mérito de trazer para a mesa propostas concretas e inovadoras, mas o sucesso dependerá da capacidade do mundo — e do próprio Brasil — de encarar e resolver suas próprias contradições.

COP30 no Brasil | As Nações Unidas no Brasil
COP30 no Brasil | As Nações Unidas no Brasil. Fonte: https://brasil.un.org/pt-br/301371-cop30-no-brasil
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