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ÍNDIA: POTÊNCIA MUNDIAL, NUCLEAR E ESPACIAL

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Redação09 de dezembro de 2024 • 5 min de leitura
A ascensão da Índia como potência mundial, nuclear e espacial, é impulsionada por um forte crescimento econômico, mas marcada por profundos paradoxos sociais.
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Índia tenta se tornar uma potência espacial. Fonte: https://super.abril.com.br/ciencia/com-sua-nova-missao-lunar-a-india-tenta-se-tornar-uma-potencia-espacial/

ÍNDIA: POTÊNCIA MUNDIAL, NUCLEAR E ESPACIAL

Compreender a Índia é, antes de tudo, mergulhar em um oceano de paradoxos. Imagine um país que, simultaneamente, detém o título de nação com a maior média de leitura de livros por habitante e, ao mesmo tempo, abriga a maior população de analfabetos do mundo. É um lugar onde uma concentração impressionante de bilionários coexiste com o maior número de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza. Esses contrastes não são meras estatísticas; são o retrato de uma civilização complexa, moldada por uma história profunda e uma ascensão vertiginosa no cenário global.

A chave para decifrar essa dualidade começa com a sua história recente. A Índia só conquistou sua independência em 1947, um piscar de olhos em termos históricos. Essa emancipação tardia do domínio britânico deixou cicatrizes profundas e um trauma coletivo que moldou uma psique nacional focada na autossuficiência. A desconfiança em relação à interferência externa tornou-se uma política de Estado. A Índia decidiu que, para nunca mais ser subjugada, precisaria construir seu próprio caminho, depender de suas próprias forças e recursos.

Essa mentalidade se refletiu em suas alianças durante a Guerra Fria. Em vez de se alinhar às potências ocidentais de seu antigo colonizador, a Índia se aproximou da União Soviética, que se tornou sua principal parceira comercial e militar. O país chegou a adotar um modelo de planificação econômica inspirado nos planos quinquenais soviéticos, fortalecendo o Estado como um ator econômico central e, ao mesmo tempo, permitindo a formação de um capital privado nacional extremamente poderoso, concentrado em grandes conglomerados familiares. Essa busca por autonomia é tão enraizada que remonta a antigos escritos hindus, que descrevem a Índia como uma grande ilha autossuficiente, um conceito que, curiosamente, tem até uma base geológica: a placa indiana, outrora uma ilha, colidiu com a Eurásia para formar nada menos que o Himalaia.

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Esse forte sentimento nacionalista não é uma particularidade de um espectro político, mas um traço cultural difundido. Há uma crença compartilhada entre as elites e a população de que a Índia é uma civilização milenar destinada à grandeza, e que a colonização foi apenas um desvio em sua trajetória natural para se tornar uma potência mundial.

O Tabuleiro Geopolítico e a Política Interna

Hoje, a política indiana é dominada pela figura de Narendra Modi, recém-eleito para seu terceiro mandato consecutivo, um feito igualado apenas por Jawaharlal Nehru, o primeiro primeiro-ministro do país. No entanto, as semelhanças param por aí. Modi representa o partido BJP, de ideologia supremacista hindu, conhecida como Hindutva. Essa visão política defende que a Índia é, em sua essência, uma nação hindu, e que as minorias devem se adequar a essa identidade majoritária.

Essa agenda tem gerado tensões significativas, especialmente com a população muçulmana, que, embora represente cerca de 15% do total, soma um contingente maior que toda a população do Brasil. A raiz desse conflito remonta à Partição de 1947, quando o subcontinente foi dividido, criando o Paquistão como uma nação para os muçulmanos. Para os seguidores do Hindutva, a Índia é o território que restou para os hindus. Essa ideologia se manifesta em políticas concretas, como leis de cidadania que excluem muçulmanos e a construção de templos hindus sobre locais de antigas mesquitas, aprofundando as divisões sociais.

A vizinhança da Índia é uma das mais complexas e militarizadas do mundo. O país já entrou em guerra com todos os seus vizinhos e mantém disputas territoriais ativas, como a da Caxemira com o Paquistão. A situação é ainda mais tensa pelo fato de ser a única região do globo com quatro potências nucleares contíguas: Índia, Paquistão, China e Rússia. A União Soviética ajudou a Índia a desenvolver seu programa nuclear, e, em resposta, a China apoiou o Paquistão. Esse equilíbrio de poder cria uma espécie de "paz armada", onde o medo de uma escalada nuclear e, principalmente, o pavor de uma intervenção ocidental, serve como um freio para conflitos abertos.

A Ascensão de um Gigante Econômico

Apesar dos desafios internos e externos, a ascensão econômica da Índia é inegável. Com um crescimento de PIB que ronda os 7% ao ano, o país já ultrapassou as economias do Reino Unido e da França, tornando-se a quinta maior do mundo. As projeções indicam que em breve superará a Alemanha e o Japão, consolidando-se como a terceira maior potência econômica global, atrás apenas de Estados Unidos e China. Isso não é um acaso, mas parte de um plano nacional meticulosamente traçado.

Essa riqueza, no entanto, é marcada por uma desigualdade brutal. O 1% mais rico da população detém 40% da renda do país, enquanto os 50% mais pobres ficam com apenas 6%. A manifestação mais visível dessa opulência são os conglomerados familiares, cujos herdeiros protagonizam eventos que desafiam a imaginação. Um recente casamento entre duas dessas famílias bilionárias teve como atrações em sua festa de "pré-casamento" artistas como Rihanna e Justin Bieber, com Beyoncé se apresentando na cerimônia principal. É um nível de riqueza que permite contratar para um evento privado o mesmo calibre de artistas que encabeçam os maiores festivais de música do mundo.

Ao mesmo tempo, o país realiza feitos de engenharia social e tecnológica em uma escala monumental. Para promover a inclusão financeira, o governo criou 500 milhões de contas bancárias nos últimos anos. Seu sistema de pagamentos digitais, o UPI, serviu de inspiração para o Pix brasileiro. Nas urnas, a Índia organiza eleições para 850 milhões de eleitores, consolidando-se como a maior democracia do planeta.

Essa nação de 1,5 bilhão de habitantes, que recentemente se tornou o primeiro país a pousar uma sonda no polo sul da Lua, continua a desafiar rótulos. É um caldeirão de tecnologia de ponta e tradições milenares, de ambição global e profundas fraturas sociais. Entender a Índia é abandonar as lentes ocidentais e aceitar que, em sua complexidade, ela não é apenas uma potência do futuro, mas uma força definidora do presente.

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