De olho no mundo
Publicidade
arrow_back De olho no mundo
Brasil

RELAÇÕES INTERNACIONAIS DO BRASIL ATUAL: QUEM É O BRASIL NA FILA DO PÃO?

person
Redação12 de fevereiro de 2026 • 5 min de leitura
A diplomacia brasileira, historicamente multilateral, hoje equilibra a aliança com os EUA e a parceria econômica com a China. A prioridades atual do país no cenário global é a liderança no G20.
bandeira-brasil-onu
O Brasil tem a responsabilidade, a cada ano, de ser o primeiro país a discursar na abertura da Assembleia-Geral das Nações Unidas (ONU).

Quem é o Brasil na Fila do Pão?

No complexo tabuleiro da geopolítica, onde nações tecem alianças, cultivam rivalidades e gerenciam interesses, o Brasil se destaca por uma característica peculiar: a vocação para o diálogo. Se as relações internacionais fossem um grande aplicativo de encontros, o Brasil seria aquele perfil desejado, que conversa com todo mundo, mantém as portas abertas e, na maioria das vezes, evita conflitos diretos. Mas essa postura é pragmatismo, carência ou uma tradição diplomática bem construída? A verdade é que, como em qualquer relacionamento, a história é cheia de nuances, reviravoltas e até alguns "ex" complicados.

A diplomacia brasileira parece, por vezes, movida por um desejo de ter "um milhão de amigos". Essa busca por uma rede ampla de contatos tem raízes históricas profundas, ligadas a uma tradição multilateralista que remonta ao século XIX. O Brasil sempre gostou de participar dos grandes fóruns, de estar presente nas discussões globais. Fomos um dos membros fundadores da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e da própria Organização das Nações Unidas (ONU). Inclusive, o Brasil tem a responsabilidade, a cada ano, de ser o primeiro país a discursar na abertura da Assembleia-Geral das Nações Unidas (ONU)

É na criação da ONU, em 1945, que surge uma das histórias mais emblemáticas dessa participação. Em meio a um mundo recém-saído da Segunda Guerra, uma bióloga brasileira, Bertha Lutz, travava sua própria batalha nos corredores da organização. Apelidada de "Lutzwaffe" por sua tenacidade, ela foi a força motriz por trás da inclusão da igualdade de gênero na carta da ONU, uma pauta que, na época, não estava no radar de quase ninguém.

Essa capacidade de influenciar e construir vai além. Poucos sabem, mas a criação da Organização Mundial da Saúde (OMS) foi uma proposta conjunta do Brasil e da China. Nossos médicos sanitaristas, com a vasta experiência adquirida no combate a epidemias no início do século XX, eram referência mundial. Um brasileiro, Marcolino Candal, presidiu a OMS por 20 anos, articulando entre Estados Unidos e União Soviética, em plena Guerra Fria, a campanha que erradicou a varíola do planeta. São legados silenciosos que moldaram o mundo como o conhecemos.

Publicidade

O Nascimento no Cenário Global: Quem Reconheceu o Brasil?

Quando o Brasil se tornou independente, em 1822, a primeira grande questão diplomática foi obter reconhecimento. Quem nos veria como um país soberano? Há um debate histórico sobre quem foi o primeiro. Alguns apontam para a Argentina, em 1823, enquanto outros defendem que o ato oficial partiu dos Estados Unidos, em maio de 1824, como um desdobramento da Doutrina Monroe.

No entanto, a história mais surpreendente vem da África. O Reino do Daomé, atual Benim, também esteve entre os primeiros a buscar relações com o Brasil independente. Isso não foi um ato folclórico ou inexplicável. A razão era brutalmente pragmática: o Brasil era o maior mercado consumidor de pessoas escravizadas do mundo, e grande parte delas vinha justamente daquela região. A relação era tão intensa que Portugal, ao finalmente reconhecer nossa independência, exigiu que o Brasil abrisse mão de qualquer pretensão de ter colônias na África, temendo que Angola e Moçambique, cujas economias eram mais ligadas ao Rio de Janeiro do que a Lisboa, preferissem ficar sob a nossa órbita.

Entre Conflitos e Alianças: A Dança das Relações

Apesar da fama de bom moço, o Brasil teve seus momentos de tensão. O século XIX foi marcado por conflitos na América do Sul, com destaque para a Guerra do Paraguai. Curiosamente, nossa relação com a Argentina, hoje parceira no Mercosul, viveu altos e baixos, com períodos de rivalidade intensa. Já com o Peru, chegamos a romper relações diplomáticas durante a guerra.

Com a Proclamação da República, em 1889, o Brasil iniciou uma aproximação profunda e duradoura com os Estados Unidos. A inspiração era tanta que o país mudou de nome para "Estados Unidos do Brasil", e por 48 horas, tivemos uma bandeira que era uma cópia quase idêntica da norte-americana, com listras verdes e amarelas. Essa aliança se tornou o eixo principal da nossa política externa por quase todo o século XX.

Isso não significa que não houve rupturas. Rompemos com a União Soviética após a Revolução de 1917 e novamente durante a Guerra Fria, com o governo Dutra. Cortamos laços com Cuba após o golpe de 1964. As relações, assim como as pessoas, mudam conforme as circunstâncias políticas.

O Poliamor Contemporâneo: Entre Washington e Pequim

Hoje, o Brasil vive o que poderia ser chamado de um "poliamor" geopolítico. A longa e estável relação com os Estados Unidos enfrenta a ascensão avassaladora da China como nosso principal parceiro comercial. Se os laços culturais — cinema, música, costumes — ainda nos aproximam muito de Washington, a balança econômica pende massivamente para Pequim, que compra nossa soja, nosso minério e nosso petróleo.

Essa dualidade coloca o Brasil em uma posição delicada, mas também estratégica. A escolha definitiva por um lado ainda não foi feita. Enquanto isso, uma nova influência cultural surge no horizonte: a Coreia do Sul, com o K-pop e os doramas, cativa uma nova geração de brasileiros, mostrando que o "soft power" não é mais exclusividade do Ocidente.

As Grandes Apostas do Presente

Atualmente, a diplomacia brasileira se concentra em três grandes frentes. A primeira é a reconstrução da imagem internacional do país, abalada por um período recente de isolamento, com foco na pauta da democracia.

A segunda é a liderança econômica e financeira, materializada na presidência rotativa do G20, o grupo das maiores economias do mundo. A cúpula de líderes, que aconteceu no Rio de Janeiro, coloca o Brasil no centro das discussões sobre o futuro da economia global.

Por fim, a aposta mais ousada: a liderança climática. Em 2025, o Brasil sediou a COP30, a conferência do clima da ONU. A escolha de Belém, no coração da Amazônia, foi um movimento simbólico e poderoso. A mensagem é clara: quem quiser discutir o futuro da floresta e do planeta, deve vê-la de perto.

Publicidade

Links citados