Síria: Como o Regime de Assad Caiu em Apenas 11 Dias?
Em novembro de 2024, Bashar al-Assad participava de um encontro de líderes do Oriente Médio na Arábia Saudita. Ele era recebido como um chefe de estado formal, um sobrevivente político que, após quase 14 anos de uma guerra civil devastadora, parecia ter vencido. Discutia o futuro da Síria, sua reintegração na diplomacia regional e se portava como o vencedor incontestável do conflito. Menos de um mês depois, seu regime, que resistiu ao Estado Islâmico e à pressão internacional, desmoronou em impressionantes 11 dias. Assad fugiu para a Rússia, pedindo asilo político, e um novo grupo tomou o poder em Damasco.
Como um governo que sobreviveu a tudo pôde cair de forma tão rápida e avassaladora? A resposta não está apenas nos acontecimentos das últimas semanas, mas em uma longa história de poder, ressentimento e um alinhamento geopolítico que criou a tempestade perfeita.
Para entender a queda, é preciso voltar no tempo, mais precisamente a 1970. Foi nesse ano que Hafez al-Assad, pai de Bashar, tomou o poder na Síria. A família Assad pertence ao grupo alauíta, uma ramificação do islamismo xiita, em um país onde a grande maioria da população é sunita. Desde o início, o regime se estabeleceu como uma ditadura de minoria, governando por 54 anos e gerando uma insatisfação popular que nunca desapareceu por completo.
Bashar al-Assad, curiosamente, nunca foi o herdeiro predestinado. Seu irmão mais velho era o escolhido, preparado desde cedo com treinamento militar e político para suceder o pai. Bashar, por sua vez, seguiu um caminho completamente diferente: formou-se em medicina, especializou-se em oftalmologia e construiu uma vida em Londres. Ele seria, nos planos originais, apenas o "irmão do ditador".
Tudo mudou em 1994, quando seu irmão morreu em um acidente de carro. De repente, o médico oftalmologista foi chamado de volta à Síria e passou por um "intensivão" de seis anos em ciências militares e geopolítica para assumir o lugar do pai. Quando Hafez morreu, em 2000, Bashar chegou ao poder.
Sua ascensão trouxe um breve sopro de otimismo. Jovem, com formação europeia e um discurso de modernização, ele prometeu um processo de abertura democrática. Por um tempo, a Síria viveu uma espécie de renascimento, tornando-se um destino turístico em ascensão, conhecido por sua gastronomia e vida noturna. No entanto, as promessas de democracia logo se mostraram vazias. Assad começou a prender opositores, fraudar eleições e governar com a mesma mão de ferro de seu pai, revelando suas verdadeiras garras autoritárias.
A faísca que incendiou o país veio em 2011, com a Primavera Árabe. Inspirados pelas revoltas populares que derrubaram ditadores na Tunísia, no Egito e na Líbia, os sírios foram às ruas. A resposta de Assad foi brutal. A repressão violenta contra os manifestantes transformou os protestos em uma guerra civil sangrenta e multifacetada. O conflito se tornou um caos de proporções globais, com o uso de armas químicas, como o gás sarin, e a ascensão do Estado Islâmico, que mergulhou a região em um novo nível de terror. A guerra na Síria provocou a maior crise de refugiados desde a Segunda Guerra Mundial.
Ainda assim, Assad sobreviveu. Sua resiliência não vinha apenas de seu próprio exército, mas de um apoio externo crucial. A Rússia, o Irã e o grupo libanês Hezbollah foram seus pilares, fornecendo suporte militar e diplomático que o mantiveram no poder contra todas as probabilidades.
Então, o que mudou? A mesma rede de apoio que o salvou se tornou sua maior vulnerabilidade. Ao longo de mais de uma década de guerra, o exército sírio foi dizimado, com perdas estimadas em 300 mil soldados. O regime tornou-se cada vez mais dependente de seus aliados. Acontece que, em 2024, esses aliados estavam ocupados com seus próprios problemas. A Rússia está atolada na guerra da Ucrânia. O Irã e o Hezbollah, por sua vez, têm suas atenções e recursos voltados para o conflito com Israel.
Militarmente, Bashar al-Assad estava exposto e mais frágil do que nunca. Foi nesse exato momento de vulnerabilidade que um grupo rebelde, conhecido como Hay'at Tahrir al-Sham (HTS), lançou sua ofensiva.
O HTS não é um grupo novo. Seu líder, Abu Mohammad al-Jolani, é um sírio que lutou ao lado da al-Qaeda no Iraque contra as forças americanas. Por anos, ele liderou a Frente al-Nusra, o braço oficial da al-Qaeda na Síria. Em 2017, ele rompeu com a organização e fundou o HTS, um grupo fundamentalista sunita que esperava o momento certo para agir.
A ofensiva foi cirúrgica e veloz. O HTS tomou cidades estratégicas como Alepo e Homs com uma facilidade surpreendente. O golpe final veio com a marcha sobre a capital, Damasco. A batalha pela cidade, que muitos esperavam ser sangrenta, simplesmente não aconteceu. O exército sírio, desmoralizado, com soldados recebendo salários que mal duravam quatro dias no mês, se recusou a lutar. Os militares simplesmente tiraram suas fardas, abandonaram seus postos e voltaram para casa como civis.
Com o caminho livre, o HTS tomou a capital. Bashar al-Assad fugiu com sua família em um avião que desligou seus rastreadores no ar, desaparecendo dos radares antes de pousar em Moscou, onde Vladimir Putin lhe concedeu asilo político.
Agora, um grupo com raízes na al-Qaeda governa a Síria. Eles prometem uma transição pacífica e o respeito às minorias, um discurso muito semelhante ao que o Talibã fez ao tomar o poder no Afeganistão. A comunidade internacional, por sua vez, observa com uma mistura de alívio pela queda de Assad e apreensão sobre quem o substituiu. Diferente do Estado Islâmico, que tinha uma agenda de terror global, o HTS, por enquanto, parece focado apenas na Síria. O mundo parece disposto a "pagar para ver", deixando um futuro incerto para uma população que já sofreu por tempo demais.
