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VÍCIO EM APOSTAS E O JOGO DO BICHO NO BRASIL

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Redação19 de setembro de 2025 • 6 min de leitura
Entenda o crescimento explosivo das apostas online no Brasil, o vício em jogos e o impacto de R$ 1 bilhão por dia na economia.
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CPI das bets e seu impacto no brasil. Fonte: https://www.politize.com.br/cpi-das-bets/

A Febre das Apostas no Brasil: Do Jogo do Bicho às Bets Bilionárias

Você já parou para pensar na força silenciosa que está remodelando a economia e os hábitos sociais no Brasil? Não estamos falando de um novo setor industrial ou de uma reforma tributária, mas de um fenômeno que acontece na palma da mão, a um clique de distância: as apostas online. O que antes parecia um passatempo inofensivo escalou para proporções que desafiam a nossa compreensão.

Recentemente, um dado divulgado pelo Banco Central soou o alarme: no primeiro trimestre de 2024, os brasileiros apostaram, em média, a impressionante quantia de 1 bilhão de reais por dia. Sim, por dia. Isso totaliza cerca de 30 bilhões de reais por mês, um volume de dinheiro colossal que, inevitavelmente, deixa de circular em outras áreas da economia.

O impacto já é sentido. Setores como bares, restaurantes, supermercados e até farmácias relataram uma queda no consumo. A lógica é simples e preocupante: o dinheiro que antes era destinado ao lazer, à alimentação ou a remédios de uso recorrente está sendo canalizado para as "bets". Não estamos mais falando de uma aposta casual de dez ou cinquenta reais; estamos diante de um rombo econômico com consequências sociais profundas.

O Limbo Legal e a CPI das Bets

Mas como chegamos até aqui? As apostas esportivas online não são ilegais no Brasil. Elas foram autorizadas durante o governo de Michel Temer, em 2018, mas um detalhe crucial marcou os anos seguintes: a falta de regulamentação. Durante todo esse período, as empresas operaram em uma espécie de limbo jurídico, muitas delas sediadas em paraísos fiscais como Malta, sem representação legal no país.

A regulamentação só veio, de fato, em janeiro de 2024. As novas regras exigem que as empresas tenham um representante no Brasil, implementem reconhecimento facial para impedir o acesso de menores de 18 anos e, o mais revelador, paguem uma licença de funcionamento no valor de 30 milhões de reais. Esse valor, por si só, demonstra o tamanho do mercado que se formou.

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Foi nesse cenário de crescimento explosivo e preocupação crescente que surgiu a CPI das Bets no Senado. A comissão ganhou notoriedade com o depoimento de influenciadores digitais, que levantou um debate complexo sobre responsabilidade, moralidade e legalidade. Uma das questões centrais colocadas foi: se a atividade é tão danosa, por que o Estado a permite?

A resposta, claro, envolve cifras astronômicas em arrecadação de impostos e patrocínios. Hoje, as bets estão por toda parte. Elas patrocinam a grande maioria dos times da Série A do futebol brasileiro e dão nome ao próprio campeonato nacional. A onipresença dessas marcas em um dos maiores símbolos culturais do país levanta uma questão desconfortável: como combater os efeitos de algo que se tornou tão intrínseco ao nosso cotidiano e à nossa economia?

A CPI também investiga práticas que ultrapassam o debate moral e entram na esfera da propaganda enganosa. Há suspeitas de que muitos influenciadores utilizavam vídeos "demo", ou seja, simulações de ganhos fáceis para atrair novos apostadores, uma prática que, se comprovada, configura um ilícito.

Um Paralelo Histórico: A Saga do Jogo do Bicho

Para entender como um jogo pode se enraizar na cultura e criar um poder paralelo, basta olhar para a nossa própria história. O Jogo do Bicho, hoje visto como uma contravenção folclórica por muitos, nasceu de uma forma surpreendentemente inocente. Em 1892, o Barão João Batista Viana Drummond, dono de um zoológico em Vila Isabel, no Rio de Janeiro, criou um sorteio para atrair mais visitantes. Cada ingresso vinha com a figura de um dos 25 animais do zoológico. Ao final do dia, um animal era sorteado, e quem tivesse o bilhete correspondente ganhava um prêmio 20 vezes maior que o valor da entrada — uma quantia que, na época, superava o salário mínimo.

O sucesso foi imediato e avassalador. A promessa de dinheiro fácil popularizou o jogo, especialmente entre as camadas mais pobres. Logo, a prática extrapolou os muros do zoológico e se espalhou pela cidade, mesmo tendo sido proibida ainda no final do século XIX.

Como uma atividade ilegal sobreviveu por mais de um século à vista de todos? A resposta está em uma curiosa mistura de transparência e poder. O jogo era considerado confiável: os resultados eram públicos, os prêmios eram pagos rigorosamente e as regras eram claras. Para uma atividade que operava à margem da lei, a reputação de "pagar certo" era essencial para sua sobrevivência.

Com o tempo, o controle do jogo passou para a mão dos "bicheiros", que se tornaram figuras poderosas e temidas. Nomes como Castor de Andrade, o "rei de Bangu", criaram verdadeiros impérios. A disputa por território para os pontos de aposta levou a conflitos violentos e à formação de milícias particulares para garantir a segurança e a hegemonia de cada bicheiro. Eles criaram um Estado paralelo, com suas próprias leis, divisões territoriais e até um "tribunal" para resolver disputas internas, ironicamente batizado de "Tribunal Barão de Drummond".

Para limpar sua imagem e ampliar sua influência, os bicheiros passaram a investir pesado em duas paixões nacionais: o futebol e o carnaval. O Bangu Atlético Clube, financiado por Castor de Andrade, chegou a ser vice-campeão brasileiro em 1985. Escolas de samba inteiras eram e ainda são, em muitos casos, patrocinadas com o dinheiro do bicho.

A história do Jogo do Bicho nos mostra como uma atividade de aposta, quando atinge proporções gigantescas, pode criar suas próprias estruturas de poder, desafiando o Estado e se infiltrando profundamente na sociedade. O poder dos bicheiros só foi parcialmente contido quando o Ministério Público e o Judiciário decidiram agir de forma enérgica, percebendo que o controle havia sido perdido.

Hoje, olhando para o fenômeno das bets, a pergunta que fica é: será que a história, de alguma forma, está se repetindo? O vício em apostas já é tratado como um problema de saúde pública. Estima-se que mais de 2 milhões de brasileiros sejam viciados, e o SUS já começa a oferecer tratamento para essas pessoas. A facilidade do acesso, diretamente pelo celular, torna o vício ainda mais potente e silencioso. O caminho a ser seguido ainda é incerto, mas uma coisa é clara: o jogo, seja com bichos ou com cliques, deixou uma marca indelével e complexa na história do Brasil.

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